O Marinheiro

Era uma vez um marinheiro, entretanto este não mais se comportava como um. Era um marinheiro aposentado, havia se recolhido, se retirado dos mares para uma vida terrestre. Talvez tivesse sido oxidado pelo sol, talvez tivesse sido congelado por um vento frio, ou quem sabe apenas não visse mais sentido em estar dentro de um barco velejando por águas turvas ou cristalinas.

E por isso ele acabou por mudar-se para uma selva, selva de pedra. E engana-se quem pensa que as instabilidades da vida urbana amedrontavam o marinheiro. Rotina, segurança, insegurança, tudo isso não o incomodava tal como as inconstâncias dos mares vinham lhe perturbando nos últimos tempos.

E por isso ele abandonou os mares. Sentia que estava na hora de escolher seu próprio destino, de tomar o controle de sua existência e de não mais deixar que as estrelas lhe guiassem e que os ventos e a correnteza lhe transportassem para qualquer lugar.

E assim o marinheiro deixou de ser marinheiro para ser mais um dos inúmeros homens comuns que habitam este mundo. Ou não.

Estrada para o prazer

A tradicional corrida debaixo das estrelas havia acabado naquela noite, e ele e seu Mustang, ganhado. Mais uma vez seu inseparável e velho carro negro como aquele céu e também como sua alma não o havia decepcionado. Poucos tinham uma parceria como a dele e a de seu carro. Seu cigarro caro e suas bebidas, alguns de seus amores, às vezes até entravam no negócio, mas a relação entre ele e seu carro era sempre forte. Os dois já dominavam aquela estrada deserta no meio do deserto, a qual levava até Las Vegas, há um bom tempo e realmente não havia quem os pudesse vencer. Os dois eram os donos daquele asfalto, quando ele fazia os pneus do Mustang cantarem, todas as vozes se silenciavam. Um espetáculo que todos paravam para ver.

Uma mulher então veio até ele para congratular. Ela pertencia a ele, era o bem que lhe fazia mal, era a joia roubada. Lábios vermelhos, unhas vermelhas, vestido curto vermelho, até seu cigarro ficou com a ponta vermelha, já que ela dera uma tragada. Ela era o próprio pecado e ele o pecador, o andar dela era tão perigoso quanto a corrida dele. Deram um beijo com gosto de adrenalina por entre a janela do carro e então ele abriu a porta e saiu, naquele momento era assistido por uma pequena plateia.

– Perdeu otário, agora me dá a grana que eu ainda quero torrar essa noite. – disse o vencedor ao perdedor, este agora saía de seu Camaro fracassado.

– Só no teu sonho, você sabe muito bem que trapaceou quando me empurrou pra fora da pista!

Ela então veio até ele, em uma das mãos um cigarro e no outro uma garrafa de Jack Daniels.

– Aqui não tem regra. – ele disse em tom de ultimato bebendo um generoso gole do uísque que tomara das mãos dela.

– E é por isso que eu tô indo embora… – desafiou o perdedor, a plateia reagiu.

– A grana! – o vencedor ordenou. – Apostou e perdeu, agora vai ter que pagar, otário!

O perdedor, decidido, entrou no carro e foi aí que o vencedor entregou a garrafa a sua amada e teve em suas mãos uma pistola que tirou de sua calça. Um tiro. Dois tiros. Pegou então a garrafa de uísque novamente e começou a beber enquanto as mãos sujas de sua mulher já vasculhavam os bolsos do agora falecido perdedor limpando todo o dinheiro que ele tinha. Aposta paga.

O corredor e sua mulher entraram então no carro. Mais um beijo intenso e perigoso, ela pega de volta a garrafa de uísque e entrega o dinheiro. Ascende um cigarro, o qual os dois dividiriam logo em seguida. E assim ele liga seu Mustang. Arranca com força. Ele sente virilidade, ela prazer. A plateia delira, aquelas duas criaturas acabaram de realizar o que todos querem fazer, mas que ninguém tem coragem.

E assim o dono daquela pista agora continuaria sua corrida, iria em direção a Las Vegas. O que faria lá? O perigoso homem e sua perigosa mulher gastariam todo o dinheiro que pegaram há pouco na cidade onde o perigo é mais que atraente e está em todo o canto.

Agora ele se tornaria novamente um rapaz e ela uma moça, os dois apenas brincariam de jogar pôquer, apostar dinheiro em roletas ou ainda passar a noite em hotéis luxuosos. Sim, brincariam. Voltariam a ser inocentes crianças querendo somente se divertir. Ou talvez crianças que pagariam qualquer preço por diversão, sendo que a diversão é na verdade o puro disfarce do prazer. O prazer que seduz, que envolve e que, acima de tudo, vicia. O prazer pelo qual se paga qualquer custo, podendo este ser até o preço de uma alma.

Mas, no fim das contas, de que vale a vida sem prazer?

Morte por afogamento

Eu já não me debatia mais. E, sinceramente, nem mais queria me debater. Minha opinião sobre minha situação, meu momento, meu fim foi transformando-se na medida em que eu fui afundando e o azul do céu tornou-se mais difícil de ver diante do azul do mar. Sim, tudo ficou diferente assim que eu me dei conta de onde e como estava, minhas convicções idiotas caíram diante do que eu via, do que me hipnotizava. Eu estava simplesmente arrebatado por aquela imensidão azul, eu já não mais pensava em morrer, mas sim em aproveitar meus últimos momentos até que a morte chegasse ou até que o azul se tornasse tão escuro a ponto de eu chamá-lo de preto.

Era a hora, a minha hora. E por incrível que pareça, estava sendo maravilhoso, espetacular. Bom seria se todos tivessem uma morte tão bonita quanto a minha, bom seria se todos os que morressem no mar deixassem-se afogar por aquele infinito azulado e paradisíaco. Como eu havia chegado ali já não me importava mais, tudo o que eu vivi ficou para trás e agora eu só pensava em aproveitar cada instante, eu já havia aceitado que minha existência desapareceria ali. Não adiantaria brigar com o destino, não adiantaria mais tentar subir, respirar, se debater, eu já havia entendido e havia decidido morrer em paz no meio daquele universo azul interminável e desprovido de estrelas.

Meus problemas, lembranças, experiências, tudo, toda a minha vida me deixava literalmente com as últimas bolhas de ar que eu ainda conseguia expelir, estas cada vez mais raras e fracas saindo de meu nariz ou minha boca.

A efemeridade veio me provar ser verdadeira. Meu ciclo se encerrava ali, se fechava naquele momento. Mas ainda assim, meus olhos insistiam em permanecerem abertos, bem abertos para olhar todo aquele azul, tal como meus ouvidos para ouvirem aquele silêncio. Paz, talvez pela primeira vez em minha vida eu consegui senti-la. Ao menos uma vez, ela veio até mim. Antes tarde do que nunca. Meus lábios até sorriam demonstrando todo o encantamento que eu sentia envolvido por aquela cortina pacífica.

E nem mesmo o frio e a pressão eram capazes de abaterem-me. Para falar a verdade, eu nem mesmo os sentia. Era como se o calor me dominasse e eu talvez jamais tenha me sentido tão livre e leve em qualquer outra ocasião em minha vida. Era realmente uma partida que qualquer um desejava ter. Eu estava feliz. Não importava a bagagem que me puxava para baixo, meus últimos momentos foram excepcionais, me emanciparam de tudo, meus últimos momentos foram lindos instantes de paz. Era como se toda aquela água marítima equivalesse as lágrimas de felicidade que eu derramava em meu fim.

E foi tudo ficando escuro, cada vez mais escuro. Eu já não me enxergava ou me sentia. Havia acabado, deixado de existir. Mas era como se eu ainda estivesse ali, flutuando, e parecia que eu iria ficar eternamente naquele mar. Por mais que a efemeridade tenha me procurado, há quem diga que bons momentos são eternos, ou ainda ecoam pela eternidade. E sim, eu sabia que estaria ali para sempre. Eu em paz naquela imensidão azul.

Leaving, Breathing, Rebirthing

Plásticos cobrindo os móveis. Poeira. Janelas sem cortinas. Objetos encaixotados. Casa vazia. Clima de nostalgia, de despedida, de saída.

Eu caminhava sereno pelo local onde vivi anos e anos de minha vida. Os últimos, ao menos os últimos daquela vida. Estava indo embora e estava decidido. Estava deixando tudo para trás, estava enterrando uma parte de mim ali e me sentia um pouco frio por isso. Talvez estivesse sendo difícil largar inúmeras lembranças, estas boas e ruins, naquele local e simplesmente ir, caminhar em frente. Parecia mesmo que parte de mim estava ficando, ou que talvez eu estivesse me esvaziando por inteiro ou até morrendo.

Mas para preencher algo, é preciso de espaço, lugares vazios. E eu estava mesmo saturado, nada mais cabia em mim ao mesmo tempo em que eu necessitava de me preencher com coisas novas. A vida que eu vivia já não me satisfazia mais. E por isso resolvi me esvaziar dela. Resolvi me preencher com o novo, o inesperado, um novo estilo, uma nova rotina. Queria encher meus pulmões de ares frescos. Vida nova. Sim, quero experiências novas, memórias novas, um novo eu. Renascer e não mais reviver o mesmo dia.

E por isso eu iria partir e deixar aquele lugar. Lembranças são apenas lembranças. Servem para relembrar, mas não para reviver e menos ainda remoer. O que passou não devia importar tanto. O tempo não volta. Não é possível passar mais de uma vez por uma experiência boa e nem mesmo consertar uma que foi ruim. Passou, é passado e, sendo assim, às vezes o que se pode fazer é deixá-lo para trás, é deixar de olhar para trás.

E lá ia eu. Ia embora. Deixava naquela casa meus móveis e até mesmo alguns objetos ou roupas. Me deixava ali, pois aquele eu jamais existiria em outro lugar. Deixava minha vida, minha rotina, meus feitos e também algumas poucas lágrimas de saudade. Sempre se tem saudade de alguém que você jamais verá novamente. Levaria apenas as lembranças, mas apenas para relembrar de vez em quando.

Plásticos protegendo o passado. Respiração renovada. Olhos descobertos para o futuro. Sentimentos velhos encaixotados. Coração vazio pronto para ser recheado. Clima de mudança, de renovação, de renascimento.

O corte

Os fios condutores que levavam energia até as lâmpadas do local eram simplesmente inúteis, pois todas as luzes estavam apagadas. O que ajudava mesmo eram os cabos que conectavam os equipamentos do Dj com as caixas de som. Esses sim, pois faziam as caixas de som bombardearem a música, todos dançavam como se o mundo fosse acabar.

Contudo, no banheiro feminino os fios condutores que levavam energia até as lâmpadas eram mais úteis que os cabos do Dj, ainda que a música chegasse até o local com muita força. Lá, uma garota estava apoiada em uma das pias. Não encarava-se no espelho a sua frente, não tinha coragem, estava submissa a sua própria feição. Imagens de pessoas dançando, beijando-se, enfim, divertindo-se estando escravisadas a sua própria natureza sem a presença de luzes, passavam por sua mente. Todos lá, juntos, e ela ali, sozinha. Injusto? Talvez. Bem, a vida quem sabe seja mesmo injusta.

E era com sua vida que a garota estava conectada. Todos os que estavam na pista e não no banheiro, estavam ligados a música, tornaram-se submissos a ela. Estavam alheios a tudo, inclusive a si próprios, a música tem esse poder. Estavam desconectados. Mas ela não. Ela não conseguia, o vínculo com sua vida parecia bloquear qualquer outra onda que a pudesse levar. A força que seus problemas, dilemas, medos e vergonhas tinham sobre ela era forte demais, a ligação era intensa demais e ela já não sabia mais como desligar-se. A única coisa que ela sabia, é que já não aguentava mais o peso de si mesma.

A garota então ergueu sua cabeça e encarou a si mesma uma última vez. Era um adeus, por mais quela não fosse sentir a mínima saudade. Deu repentinamente uma cabeçada no espelho, imediatamente pode sentir seu sangue misturar-se a suas lágrimas. Catou em seguida um caco do espelho. Olhou para seu pulso, olhou mais especificamente para um fio que oscilava entre o verde e o roxo que havia debaixo de sua pele.

Quando não se consegue desconectar, o único jeito é cortar a conexão.

E foram estas as últimas palavras da garota.

I Get Along Without You Very Well

As pessoas geralmente me tomam como um homem frio. E sim, talvez eu seja mesmo um iceberg ambulante, talvez eu não tenha coração ou algo assim. Dificilmente sinto afeto, raramente sinto pena e eu de fato não choro nem cortando cebolas. Talvez isso não seja uma demosntração de frieza que se leve em conta e talvez essa coisa de insensibilidade seja uma pura besteira, mas quem se importa?

Bem, eu comecei a me questionar sobre esse tipo de coisa quando matei alguém pela primeira vez. Na verdade não era exatamente um alguém, eu pelo menos não considerava o cachorro da minha ex como um “alguém”.

Eu gosto muito de jazz e eu ouvia uma música fantástica em uma interpretação nada menos que sublime naquele dia: “I Get Along Without You Very Well” na voz de Chet Baker. Eu estava sozinho em nosso antigo apartamento, meu e de minha ex, o qual ficava no centro de Londres. Caramba, eu adorava morar ali. Chovia levemente do lado de fora e eu realmente me sentia extremamente bem ouvindo jazz sozinho em casa em tardes chuvosas como aquela, ainda mais acompanhado por uma composição perfeita dessas entrando por meus ouvidos. Eu era viciado nesse tipo de momento, para falar a verdade, gostava de saber que eu não estava literalmente sozinho, o jazz me deixava descobrir o que era solidão. O problema é que aquele ordinário animal, aquele Cavalier King Charles Spanie, raça esta própria do Reino Unido, que atendia pelo infame – e desprovido de criatividade – nome de Spike, me atrapalhava, me irritava e me deixava extremamente possesso com o seu latido.

Aquilo estragava a música, aquele latido contínuo acabava com aquela sonoridade maravilhosa. Sabe, eu não suporto que algo atrapalhe uma música, talvez músicas sejam as únicas coisas que são capazes de passarem pela minha invulnerabilidade. O fato é que eu fui até a cozinha, peguei uma faca e logo após olhar para aqueles temerosos olhos daquele animalzinho, enfiei o metal em seu pescoço. Ele parou de latir em seguida. Sabe, eu quase hesitei, eu olhei no fundo dos olhos pretos e brilhantes do cachorro e eu realmente pensei em não matá-lo, mas quando eu dei por mim já tinha feito. Foi mais forte do que eu. Os olhos dele pareceram chorar quando me viram pegar aquela faca, eu realmente enxerguei um pedido de misericórdia naquelas duas grandes pérolas negras, mas enfim… O matei, o fiz. Peguei então um saco de lixo, coloquei-o dentro e o deixei na lixeira coletiva do prédio.

Minha ex, quando chegou em casa, me viu quieto sentado no sofá e imediatamente notou a falta de seu animal de estimação, seu amigo, como ela mesma dizia. Disse a ela que ele fugiu e ela brigou comigo por não ter tomado conta de seu amado Spike. Eu fui frio. Matei, menti, enganei e sinceramente nem me importei com o que fiz. Ter matado aquele cão foi o mesmo que ter jogado o lixo do banheiro fora. Foi tranquilo, foi ordinário.

Mas ela, minha ex, também foi fria. O cachorro era importante demais para ela, que não suportou tê-lo perdido, o que fez com que terminasse o nosso relacionamento. Não se importou com o que eu sentia, não se importou sobre como seria para mim, apenas terminou comigo porque eu dei fim ao cachorro maldito dela. Mas para falar a verdade, eu também não me importei. Talvez não a amasse, talvez ela significasse para mim o mesmo que eu significava para ela – a única diferença é que nem o cachorro importava para mim naquele ciclo de friezas.

Porém, dane-se, dane-se tudo. Eu segui bem sem ela. Hoje eu não moro no centro de Londres, mas tenho um apartamento e me sinto bem nele ouvindo jazz sozinho em tardes chuvosas, sendo que agora ninguém me interrompe. E sim, talvez eu seja frio, matei mais duas vezes e segui bem sem outras pessoas teoricamente importantes que passaram por minha vida.

O Príncipe

Para muitas ele era a personificação do “príncipe encantado”, mas mesmo tendo tudo o que uma mulher poderia admirar em um homem, ele tinha um defeito: a fraqueza. Poderia ser poderoso e educado, imponente e polido, viril e compreensivo, contudo era fraco, ou pelo menos fraquejava justamente no momento em que precisava ser firme. Abria a porta do carro, empurrava a cadeira, pagava todas as contas, beijava com desejo, tocava com firmeza e sabia cortejar, enfim, ele podia fazer tudo o que qualquer mulher desejasse, porém, quando precisava dizer o que tinha de ser dito e fazer o que tinha de ser feito, ele hesitava. Não tinha coragem, ele simplesmente não conseguia, era como se o homem dentro dele recuasse.

Era um rapaz de olhos atentos, ouvidos espertos e boca pronta para dizer o necessário, ele passava longe de ser um tonto, porém, seu coração era frágil, e pior, apaixonado, muito apaixonado, sendo que esse coração, infelizmente, sabia muito bem quem amava. O que os olhos vêem o coração sente, e como sente. Ele sabia muito bem que não passava de um troféu para ela, sabia também de todas as traições e trapaças e sabia que ela esqueceria sua morte, mas jamais a sua herança. Tudo era mais que claro para ele, mas seu coração não lhe permitia fazer nada, ele podia conhecê-la como a palma de sua própria mão, mas mesmo assim não conseguia usá-la para ferir aquela que lhe machucava. Palavras como “vagabunda” e “vadia” ecoavam dentro dele, mas ela nunca as ouviu de sua boca. Ele, como um verdadeiro príncipe, não tinha coragem de destruir seu conto de fadas, mesmo que não estivesse com uma mulher que poderia chamar-se de princesa.

A história desse homem prova uma lei, uma lei universal. Ama-se quem não se deveria amar, faz-se tudo por quem não merece e deixa-se verdadeiros sentimentos para correr atrás de alguém que não é capaz de sentir algo. Quanto mais se tenta afastar-se de uma coisa, mais próximo se fica do que deveria repugnar, é sempre assim. Triste maldição a que foi rogada para este príncipe, ele era capaz de costurar a própria boca para não ter de dizer que sua princesa não era bela, meiga e perfeita como as das histórias que ouviu quando criança.

Eis que certa noite o príncipe entrou em seu quarto e pode ver sua princesa dormindo tranqüila e serena em seus aposentos. Ele havia mudado, mas ela continuava bonita, de pele rosada, lábios rubros e cabelos dourados. Uma verdadeira bela adormecida era ela. Ele então foi até a cama e deitou-se ao lado dela, tinha uma faca em mãos. Cobriu-se e assistiu-a pegar no sono por alguns instantes, até que passou delicadamente a faca gelada pela perna dela, que diante do choque térmico ocorrido entre metal gelado e sua pele, acordou assustada.

– O que foi isso? – ela perguntou.

– Sentiu o gelo? – o príncipe interrogou.

– Senti…

– Achei que você, sendo tão fria, nem iria perceber a diferença de temperatura…

– Seres humanos têm corpo e sangue quente caso você não saiba! – ela disse tal como se não tivesse gostado da “brincadeira”.

– Jura? Já que é assim deixe-me ver se você é humana mesmo!

O príncipe então enfiou a faca no ventre de sua princesa por debaixo dos lençóis, ela imediatamente urrou de dor.

– O que está fazendo? Ficou louco? Você, sendo quem você é, não poderia fazer isso… Socorro, alguém me ajude! – ela gritava debatendo-se enquanto ele a esfaqueava sem dó.

– “Sendo quem você é”. Frase interessante… – ele disse a ela assistindo seus últimos suspiros e sentindo seu sangue frio escorrendo por suas, agora firmes, mãos. – E quem eu sou, pode me dizer? Todos acham que eu sou um verdadeiro príncipe, tal como aquele que você encontra nos contos de fadas. Engana-se quem pensa assim. Sou outro tipo príncipe, aquele que te diz agora que o seu fim é justificado pelos seus meios…

E ela então adoeceu. Ele fechou seus olhos dela e a beijou com amor e ternura, mas a mulher, não sendo uma princesa, não despertou, o que não o surpreendeu. E ele também não era um príncipe, tinha acabado de revelar que não era. Para falar a verdade ele talvez até fosse, mas o amor, que às vezes dura e às vezes fere, o transformou em outro tipo de príncipe. Ele tornou-se o temido, o tirano, o firme, enfim, ele tornou-se o maquiavélico príncipe.

E aquela história, não sendo um conto de fadas, não teve um final feliz.